CAPS combate o crack de forma eficaz sem internação compulsória

CAPS combate o crack de forma eficaz sem internação compulsória

Proposta de Paes de recolhimento do usuário é vista por psicóloga como “higienização”

L., um homem de 44 anos, mudou-se de Bonsucesso, Zona Norte do Rio, para a calçada defronte ao Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas Centra-Rio, localizado em Botafogo, na Zona Sul carioca. Fez isto em busca do tratamento da sua dependência do crack e da cocaína, uma vez que por conta do vício perdeu o emprego, a família e não dispõem de dinheiro para a passagem que o levaria a Botafogo.

O tratamento que L. busca de forma extremada é oferecido gratuitamente por órgão público que rejeita a política da internação compulsória que o prefeito Eduardo Paes está adotando no Rio. No lugar de internar compulsoriamente qualquer dependente que seja, os CAPS-AD trabalham com a política de Redução de Danos.

Assim como L., pai de três filhos, dezenas de pessoas mudaram sua rotina na tentativa desesperada de buscar ajuda para se livrar da dependência química. Todos estimulados por conhecidos que encontraram a saída para as drogas no tratamento oferecido por estes CAPS-AD, unidades financiadas pelo Ministério da Saúde, desde 2002.

Escondendo o usuário

A política diferencia-se da internação forçada de usuários de crack que já vigora para crianças e adolescentes, e que o prefeito insiste em estender. Nesta quinta-feira (25) ele, em Brasília, obteve o apoio do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

A opção da Prefeitura do Rio é classificada como “higienista” por especialistas em dependência química. “O que se vê hoje na cidade do Rio é uma política de higienização. Só estamos discutindo o crack porque há usuários desta droga espalhados pelas ruas. Com a internação compulsória, a intenção é tirá-los da visibilidade. E isto não deveria acontecer, porque é ineficaz”, desabafou a psicóloga Silvia Tedesco, que há 20 anos lida com dependentes químicos.

O tratamento oferecido pelos CAPS-AD baseia-se na liberdade e na política de redução de danos. A proposta, que popularizou-se no Brasil durante a década de 70, consiste em terapia intensiva para dependentes químicos com a finalidade de fazer com que cheguem à abstinência. Ou seja, se a abstinência não for alcançada, há redução da quantidade de drogas usadas. Sem tratamento de choque como a internação, os usuários conseguem manter uma vida normal e chegam até a conciliar a terapia com trabalho e estudo.

O método, baseado no atendimento ambulatorial com equipe multidisciplinar (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e clínicos gerais) é, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o que mais funciona na recuperação dos dependentes químicos.

Internações e recaídas

Pelo tratamento, o uso da droga não é proibido logo que iniciado. Antes pelo contrário. A psicoterapia leva o usuário a abandonar a droga por si só. Os resultados obtidos com este tipo de tratamento no mundo, segundo a OMS, podem chegar a 35%. A internação (voluntária ou à revelia), por sua vez, no máximo tem recuperado 10% dos pacientes. Outros 90% dos internados sofrem recaídas logo após a alta.

Usuário de álcool desde 12 anos e de cocaína por 22, Z.R, de 44 anos, não imagina sua vida longe do tratamento diário do CAPS-AD. Os Centros oferecem não apenas o atendimento ambulatorial, mas também oficinas de terapia ocupacional e refeições. Só não há permissão para pernoitar.

“Aos poucos estou abandonando a cocaína e já não uso mais álcool. Já estive internado, mas não adiantou absolutamente nada. Assim que saí da clínica, bateu uma vontade forte de voltar a usar droga. Não resisti. Caí em tentação e o período que passei internado não resolveu o problema”, contou ele. “Eu quero parar e tenho certeza de que vou conseguir. Mas não dá para ser um tratamento de choque como a internação, as coisas têm que acontecer aos poucos”, diz o dependente, que não vê com bons olhos a internação compulsória. “Se funcionasse, tudo bem, mas não funciona”.

O pintor L., o ex-morador de Bonsucesso, decidiu procurar ajuda depois de ficar desempregado. “Não tenho dinheiro para vir de Bonsucesso para Botafogo me tratar. Então, passo a semana dormindo na calçada do CAPS-AD. Tudo pelo meu tratamento”, destaca o usuário que já foi internado duas vezes.

“Limpo” há dois anos, o estudante S., 41 anos, conta que chegou ao CAPS-AD por intermédio de um conhecido, quando viu que depois de aderir ao uso de crack não tinha saída sem ajuda:

“Desde 12 anos eu usava todo tipo de droga que se possa imaginar, mas depois que aderi ao crack cheguei ao fundo do poço. É uma droga muito mais rápida que as outras. Já trafiquei e roubei para comprar pedras”, confessa. “Quando tomei consciência de que a minha vida estava piorando muito mais a cada dia, aceitei a ajuda de um amigo para conhecer o CAPS-AD e estou aqui há dois anos”, conta o carioca, que participa de concursos de marchinha de carnaval e voltou a estudar há um ano e seis meses.

Política higienista

Com experiência de quase 20 anos no tratamento de dependentes químicos, a psicóloga Sílvia Tedesco classifica a medida anunciada pelo prefeito Eduardo Paes como “higienista” e “despreocupada com a saúde dos dependentes químicos”.

Para ela, o método adotado pelo CAPS-AD é mais eficiente e mais comprometido com resultados a longo prazo do que as internações forçadas, que encara como uma medida emergencial inútil.

“O tratamento ambulatorial é comprometido com o resgate daquele ser. Há uma tentativa de resgate das relações familiares. É diferente do imediatismo de se internar todos os usuários de crack para limpar as ruas. A preocupação não tem que ser com as ruas, mas com as pessoas”, diz. “A Prefeitura deveria ampliar os CAPs para ter um bom resultado a longo prazo. Mas fazer melhor dá mais trabalho, né?”, indaga.

Experiência em São Paulo

Professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (Proerd), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Dartiu Xavier da Silveira aponta os ganhos da adoção da redução de danos para a saúde pública do país.

“O usuário que não consegue ficar abstinente não vai parar de usar a droga. E este grupo que não consegue largar é maioria. O máximo que se pode conseguir, para alguns, é diminuir o uso. Assim, muitos dependentes conseguem ter uma vida normal apesar da droga. É como o bordão ‘dos males, o menor’ “, explica.

O programa coordenado por Dartiu atende 700 dependentes químicos por mês e está vinculado à Prefeitura de São Paulo. Além do tratamento terapêutico, os cuidados com os dependentes consistem também na distribuição de cachimbos higiênicos. A intenção é evitar a proliferação de doenças como hepatite B e C, além de HIV.

“Ao compartilhar cachimbos feitos de latinhas de alumínio ou de outros materiais cortantes, os usuários acabam trocando entre si inúmeras doenças. Com a distribuição de cachimbos higiênicos e individuais, temos uma diminuição da problemática”, diz o psiquiatra Thiago Fidalgo, também integrante do Proerd.

marialuisa.melo@jb.com.br

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